Quando a polícia é parte da solução

Em meio à tempestade mais que perfeita em que seu governo mergulhou, o presidente Donald Trump encontrou um galho para se agarrar, enquanto sua popularidade sofre queda livre. Trata-se do slogan “defund the police” (retire verbas da polícia), usado pelos manifestantes. Apenas 16% dos americanos apoiam a ideia, que para eles significa não ter mais o 911 para ligar se alguém invadir sua casa. 

Trump está aproveitando a ideia para “colá-la” nos democratas e se colocar como o defensor da “lei e da ordem” e da “maioria silenciosa”, dois slogans, por sua vez, que ajudaram outro republicano, Richard Nixon, a se eleger em 1968, em meio aos protestos contra o racismo que culminaram no assassinato do líder negro Martin Luther King.

Antevendo o perigo, o candidato democrata, Joe Biden, declarou-se contra a medida. 

Mas “defund” não significa acabar com a polícia e sim deslocar parte das verbas para atendimentos  especializados para pessoas que abusam de drogas ou álcool ou sofrem de demência, por exemplo. Isso retira a sobrecarga da polícia em tarefas para a qual ela não está treinada e diminui a violência policial porque os policiais muitas vezes chegam com a mão pesada mesmo quando a força não é necessária.

Para se ter uma ideia da escala do “defund”: Los Angeles anunciou que vai deslocar US$ 150 milhões para atendimentos sociais do orçamento de US$ 1,86 bilhão da polícia. 

Existe, sim, a discussão sobre desmantelar forças policiais. Em Minneapolis, onde George Floyd foi asfixiado até a morte pelo policial Derek Chauvin, 9 dos 12 vereadores já concordaram em abolir a atual polícia. Mas também nesse caso não se trata de ficar sem polícia, mas de criar uma nova, com profundas ligações com a comunidade. 

Funcionou por exemplo em Camden, Nova Jersey, em 2012, com queda expressiva na criminalidade. Lá, os policiais passam pelas casas, conversam com os moradores, deixam seus cartões e se colocam à disposição para qualquer eventualidade. Nos fins de semana, a polícia faz churrasco e distribui sorvete nas áreas mais pobres. Os crimes violentos diminuíram mais de 60%.

Na reforma das polícias, a palavra-chave é “de-escalate”. Ou seja, em vez de chegar empregando mais força do que os envolvidos na cena de um crime, os policiais usam táticas para diminuir a violência. É possível sempre? Claro que não. Nas situações intratáveis, é preciso dominar pela força. Mas a maioria dos casos não é assim. 

A polícia precisa aprender a ser parte da solução, e não do problema.